Contos

A galinha manca

A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca.

Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor.

A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a sombra, procura o sol. A galinha conjuga os verbos da solidão. Nenhuma outra galinha, nenhum galo. A vida parece sem sentido.

A galinha ergue a cabeça, apruma o corpo, soluça e volta a caminhar. É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado, para o outro, olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê. E caminha.

Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala. Mas caminha, tropeçando na própria perna, caindo, levantando. Caminha, intrépida, poderosa. A galinha mínima domina o seu mundo mínimo.

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José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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